Vidro frio, moldura inerte,
Reflete a face, instante certo.
Mas guarda além da superfície rasa,
Um mundo outro que a alma abrasa.
Nos olhos que fitam o próprio olhar,
Desvenda-se um tempo a bailar.
O ontem que moldou a cicatriz,
O amanhã que em névoa se diz.
Não mente o espelho, apenas mostra,
A dança da vida que em nós se encosta.
As linhas que o tempo bordou na tez,
As sombras da alma, sutis talvez.
E o segredo reside no ver além,
Da imagem que a luz traça aquém.
Sentir a história que o reflexo contém,
E no próprio ser, o universo retém.
Olha-te fundo, sem véu ou temor,
Descobre em ti o teu maior valor.
Pois o espelho não cria, ele só revela,
A beleza escondida que a vida modela.
Amarilis Pazini Aires