O sol nasce dourado sobre o asfalto polido,
E a vitrine de vidro reflete o brilho da manhã.
Há um café fumegante, um sorriso bem-vestido,
E o eco de um riso que a rua não tem.
Mas do outro lado, o sol é só calor que fere,
Na pele marcada, no olhar que não desvia.
É a mão que se estende, a face que se dissolve,
No silêncio que a fome e a pressa tece.
Há muros de concreto e muros de silêncio,
Que separam os mundos em abismos e pontes de ar.
Onde a festa da fartura é a miséria do outro em flagelo,
E a canção do luxo é um lamento a chorar.
Não é a dor do peito, a dor de um adeus,
Mas a dor da gente, a dor de um povo inteiro.
É o grito que não se escuta nos olhos azuis,
O peso invisível do nosso mundo em desespero.