Guardo no peito um tom que não se nomeia,
Um azul que nem o céu mais puro alcança.
Não está nos quadros, nem na fantasia,
É a cor da minha antiga e breve bonança.
É um matiz de pôr do sol em terra estranha,
O calor da chama que já foi e se apagou,
A poeira fina que na lembrança não arranha,
O tempo que parou onde o amor ficou.
Ele era o verde vivo do primeiro espanto,
Antes que a chuva densa lavasse a certeza.
E o amarelo breve que cintila num canto,
Na folha ressecada, feita de realeza.
Não peço que ele volte, nem que o tempo gire,
Só que o brilho desta cor não desvaneça.
Pois todo o meu passado, que respira e suspira,
Vive neste matiz que o presente não pressa.
É a cor da infância, da promessa não dita,
Da porta que se fecha e o vento não abre mais.
É a saudade em tinta, eternamente invicta,
A cor que o tempo esqueceu e a alma não desfaz.
Amarilis Pazini Aires
Foto -amarilisaires