Não se envergonhe da linha torta,
Do mapa que a dor na pele fez.
A vida não é porta
Que se fecha só uma vez.
Cada cicatriz que o tempo insiste em deixar
É a prova de um combate que soubemos vencer.
É um verbo, um gesto, um novo lugar
Onde a antiga ferida pôde florescer.
No relevo áspero, na marca que ficou,
Reside o sussurro de uma história a contar,
O silêncio do que a lágrima levou,
O grito que a alma conseguiu calar.
É que o barro, depois de queimar,
Torna-se forte, vaso de ouro e lume.
E a lembrança não quer mais magoar,
Mas veste de cor o mais doce ciúme do que se foi.
Das cicatrizes brotam poesia, sim,
Não a dor, mas o eco do passo que avançou.
É o livro aberto, o infinito sem fim,
Onde a força da vida se instalou e continuou