Numa rua qualquer, entre o cinza do asfalto e a pressa vã,
Um cheiro de café, uma sombra fugaz, um toque na mão.
O tempo parou, a cidade emudeceu, a memória em flor.
Onde eu te guardei? Em qual verso, em qual dor?
Era você ali, o riso suspenso, o olhar familiar,
Que o tempo não apagou, nem pôde roubar.
As rugas nos cantos dos olhos, um mapa de histórias,
Mas o brilho de outrora venceu as intempéries, as glórias.
A palavra falhou, presa na garganta, em arroubo mudo.
Tanto a dizer, e o silêncio preenchendo tudo.
Esvoaçou a saudade, num abraço que a vida atrasou,
E o futuro, por um instante, o passado alcançou.
Naquele reencontro, o universo conspirou a nosso favor,
Pois certas almas se encontram, mesmo sem aviso, por puro amor.
E a despedida de outrora, ferida que mal cicatrizou,
Ganhou um novo sentido, no instante em que o olhar recomeçou.
Amarilis Pazini Aires