Aqui jaz o reflexo, em mil retalhos de dor,
Não mais a imagem una, mas cacos de clamor.
A prata descolada, a moldura no chão,
E cada estilhaço, uma ferida no coração.
Não sou mais a figura que o todo me mostrava,
Agora sou mosaico de tudo que me faltava.
Em cada ponta aguda, a luz se distorce,
E o que foi meu rosto, em pedaços se contorce.
Por contar a história do golpe que não vi,
Do momento exato em que a clareza se partiu.
Um fragmento lembra um olhar que se perdeu,
Outro guarda a cicatriz do amor que morreu.
Neste chão de brilhos, onde o passado mora,
Olho para dentro, a cada peça que aflora.
A identidade estilhaçada, a alma a sangrar,
Mas mesmo em cacos, a vida insiste em refletir
e procurar.
Pois se o espelho inteiro prometia a ilusão de um ser,
Os mil pedaços gritam a verdade de quem devo ser:
Não um todo perfeito, mas a soma da fratura,
A beleza cortante da minha recomposta e viva estrutura.
E eu recolho os cacos, um por um, com cuidado,
Para tecer, na sombra, o futuro inacabado,
Onde a nova imagem, imperfeita e crua,
É mais real e minha que a primeira que existia nua.
Amarilis Pazini Aires