Estranha forma de existir é esta:
Ter a infelicidade por visita,
Não a que fere e a alma aniquila,
Mas a que em paz, calada, se manifesta.
Não é dor, não é luto, nem revolta,
É só o peso da asa que não voa,
O avesso que na vida se descola
E, mesmo assim, parece coisa boa.
É o conforto em ser o que se sente,
Sem a pressa de fingir, de ser feliz;
É tomar a ausência do sol presente,
Como quem toma a água pela raiz.
Se o coração sorri por obrigação,
A alma, em silêncio, sabe o seu lugar.
É nesta calma e doce solidão
Que a estranha forma ensina a amar.
Pois só quem vê a falta na paisagem
Compreende o que a luz pode esconder.
E a infelicidade é só a margem
Onde a verdade começa a aparecer.
Amarilis Pazini Aires
Foto- -amarilisaires