Setenta anos. Não é um número simples.
É a cifra que se dobra sobre o tempo,
Um catálogo de sóis e de vendavais,
O mapa-múndi de toda a tempestade.
Há um peso que o corpo, lento, carrega:
O esquecimento, a curva da coluna,
As rugas — rios secos de uma vida plena —
E o adeus silenciado de mil perdas mudas.
É a estante de livros onde o pó se aninha,
A sabedoria que o tempo ensinou,
O filtro que separa o grão do joio,
A paz de quem viveu e não se arrependeu.
Setenta é a taça onde se prova o vinho,
Não mais a uva verde de um começo insano,
Mas o licor denso, que de cada ano
Extraiu o âmago do seu bom caminho.
Triste, sim, pela falta, pelo que findou,
Pelo vigor de um ontem que não volta mais;
É a saudade que no peito ancorou,
Onde os antigos risos se tornam cristais.
Alegre, porém, por ser a fundação,
O avô da história que o futuro espera,
A árvore de tronco forte nesta era,
Dando sombra e consolo, em sua estação.
Setenta anos é a estranha felicidade
De rir e chorar no mesmo compasso,
De ter a alma leve na vasta cidade,
E o coração tranquilo, a celebrar o abraço.
Amarilis Pazini Aires
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