Não me venhas com flores nem canções,
Nem com o abraço urgente que conforta.
A porta da tristeza, quando aberta,
Precisa de silêncio nas divisões.
Não há frases que curem o que me dói,
Neste instante em que a alma se retrai.
O peso do meu dia me desfaz,
E a melancolia em paz me constrói.
Não me digas "passa", "vai ficar bem",
Pois a lição do inverno é ser o frio.
Eu preciso do meu próprio navio,
Navegando só, sem rumo, sem ninguém.
Deixa o nó na garganta ser desfeito
Com a lágrima que escorre sem pudor.
O luto da alegria, sem clamor,
É o espelho em que olho meu defeito.
Quando eu estiver assim, no meu deserto,
A maior gentileza é ser ausente.
Permite-me sentir o que se sente,
No tempo exato, lento, e mais incerto.
E quando a névoa enfim se dissipar,
Eu mesmo voltarei, sem que me chames.
Mas hoje, por favor, só me reclames
O direito sagrado de chorar.
Amarilis Pazini Aires