O Inventário do Escuro
Lá reside ele, entre papéis amarelados,
sob o peso de contas e chaves esquecidas.
Um sonho com as bordas gastas, de lado,
comprimido entre as urgências das vidas.
Tem cheiro de mofo e de infância remota,
vibrante como um grito que ninguém ouviu.
É a bússola antiga, a secreta rota
que o medo, num dia de chuva, omitiu.
A madeira da gaveta é um cárcere mudo,
mas o sonho não morre, ele apenas espera.
Pois a alma sabe, apesar de tudo,
que o inverno do trinco não mata a primavera.
E se hoje a mão, num gesto de espanto,
puxasse o puxador com força e vontade?
O pó voaria de cada canto,
revelando o rosto da tua verdade
Amarilis Pazini Aires