O Pulmão de Madeira e Metal
(Bandoneon)
Ele não canta, ele confessa segredos,
Num fole que abre e fecha a dor.
Dedos de seda, ou talvez de medos,
Arrancam o som de um antigo amor.
É um fole que range, que trava e que morde,
Um fole que busca o ar que não tem.
Em cada gemido, em cada acorde,
Ele traz o inferno e o céu também.
O fole se estica, um grito no escuro,
O fole se encolhe, um silêncio a guardar.
É o eco de um muro, de um tempo mais duro,
Que o bandoneón teima em nos relembrar.
Não é madeira, nem couro, nem tecla,
É o próprio tempo que insiste em passar.
Na mão do mestre, a alma se mescla,
E o peito aprende o que é soluçar.
Amarilis Pazini Aires