O Hóspede que não se Despede
O relógio avança, a folha cai,
O sol se põe e o mundo se refaz,
Mas há um tempo que de nós não sai,
Um ontem mudo que não nos dá paz.
Não é lembrança, pois a memória esfria,
É uma presença, um vulto assustador,
Uma saudade que virou rotina fria,
Ou uma cicatriz que ainda guarda a dor.
As ruas mudam, os rostos são outros,
Mas o coração insiste em habitar
Aquelas salas de móveis remotos,
Onde o seria ainda tenta estar.
É um passado que não vira história,
Que não aceita o ponto final,
Que se repete em busca de vitória,
Num vulto eterno, quase um ritual.
Pois quando o passado teima em não passar,
Ele não é mais tempo, vira lugar.
E a gente vive o hoje de visita,
Enquanto o peito no ontem habita.
Amarilis Pazini Aires