O Tribunal do Espelho
Ergui um muro onde era caminho,
E fiz do erro um teto de granito;
Vivi o tempo de ser meu espinho,
E de calar, em mim, o próprio grito.
É fácil dar a mão ao que é distante,
E absolver o estranho que falhou;
Mas como ser, por dentro, o tolerante,
Com aquele "eu" que o sonho abandonou?
O autoperdão não é negar a falta,
Nem absolver o que a mão cometeu;
É baixar a voz que o medo exalta,
E aceitar que quem errou... era eu.
É olhar pro ontem sem o açoite,
Limpar a poeira que a culpa deixou;
Pois quem se prende à sombra da noite,
Não vê o sol que a manhã reservou.
Sou feito de barro, de luz e de rastro,
Um eterno rascunho em aprendizado;
Desço do pedestal, retiro o mastro,
E abraço o humano que foi resgatado.
Amarilis Pazini Aires
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O Nó que se Desfaz
Perdoar não é esquecer o traço,
Nem apagar o que o tempo escreveu;
É desatar o nó do próprio braço,
E devolver ao mundo o que não é seu.
É uma porta que se abre por dentro,
Na cela escura de um rancor antigo;
É encontrar, no olho do tormento,
A paz de não ser o próprio inimigo.
Não se perdoa por quem nos feriu,
Pois a mágoa é brasa em mão fechada;
Quem guarda o fogo, a pele já sentiu,
E queima a alma em trilha abandonada.
O perdão é o passo do valente,
Que aceita a cicatriz, mas nega a dor;
É viver o agora, plenamente,
Sem ser escravo do que já passou.
Amarilis Pazini Aires