O Bibliotecário da Mentira
Quem mente precisa de mil prateleiras,
De pastas, arquivos, de datas e nomes;
Ergue muros altos, inventa fronteiras,
Mas a própria memória o devora e consome.
É um arquivista de fios invisíveis,
Tecendo o ontem com o talvez.
Buscando álibis sempre plausíveis,
Jogando o xadrez da própria insensatez.
A mentira exige vigília constante,
Um mapa de notas que não tem final.
O medo de um lapso, de um erro gritante,
Que mude o roteiro e revele o real.
Já a verdade... essa não tem rascunho.
Não gasta o tempo com o que foi que eu disse?
Não pede plateia, nem busca testemunho,
Nem teme que o tempo a desmonte ou enlouquece.
A verdade é nua, caminha no vento,
Sem malas pesadas de explicações.
Ela dorme no agora, no puro momento,
Livre do cárcere das simulações.
Um peito descansa, o outro vigia;
Um vive o presente, o outro o passado.
A verdade é paz, é a luz do dia.
A mentira é um livro... de autor condenado.
Amarilis Pazini Aires