Lembranças de uma Gaveta
Onde o trinco range, a memória se assenta,
no escuro guardado que o tempo não venta.
Há um conto a lápis, grafite e cansaço,
que dobrou o destino em um breve pedaço;
quatro cantos de um mundo, silêncio e grafia,
na folha que esquece que já foi poesia.
Um olhar prisioneiro em moldura de madeira,
a moldar o que fomos de qualquer maneira.
Não pulsa, não fala, apenas vigia
a poeira que dança em sua moldura fria.
Entre as frestas do tempo, o carmim se desfez,
esfarela-se o brilho que foi de uma vez.
O perfume morreu, restou só o traço:
um fóssil de afeto no fundo do espaço.
Tudo o que é dobrado um dia se rasga,
toda cor de pétala o outono mastiga.
Mas no fundo da gaveta, o que a mão não alcança
ainda guarda o peso de uma antiga esperança.
Amarilis Pazini Aires