E as Luzes Apagam-se Lentamente!
O tempo apaga as corredeiras da vida e deixa um borrão no rascunho inelegível dos momentos que tocaram, intensamente, os sentidos.
Recomeçar? Mas como, se estados distintos se apresentam e se tornam impossíveis de digerir? O emocional e o físico distanciam-se, nitidamente, dia após dia.
É impossível retroceder o corpo; os pés já não acompanham os movimentos e tornam-se lentos, enquanto as emoções vacilam entre o ontem e o hoje.
A chuva banha a fronte, o vento entorta o tronco, as águas estagnam-se e as luzes apagam-se lentamente.
Resta apenas o silêncio do que foi, ocupando o espaço do que poderia ser. O rascunho, antes caótico, agora descansa sono peso da penumbra. E, nesse descompasso final entre o querer e o poder, a alma finalmente entende: não se trata mais de vencer a correnteza, mas de deixar-se levar pelo que ainda flui, mesmo que no escuro, mesmo que na paz.
Mas, nesse descompasso, o que sobrevive não é a agilidade do passo, mas a nitidez do rastro. Se o corpo já não traduz o que a alma grita, o olhar aprende a ler o invisível. Entre a mancha do tempo e a luz que se esvai, sobra a certeza de que a vida não se mede pelo vigor do tronco que se curva, mas pela profundidade das raizes que, mesmo em águas paradas, ainda sabem onde buscar a terra.
Amarilis Pazini Aires
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