A Partitura dos Contrastes
O metal range na engrenagem do dia,
buzinas cortam o ar como navalhas,
mas no meio da cinza e da agonia,
um trinado atravessa as muralhas.
É o contraste vívido, quase absurdo:
o motor que ruge, grave e insistente,
contra o bico que molda, no mundo surdo,
um desenho de som, puro e valente.
Enquanto o pneu beija o asfalto quente
e a britadeira dita o tom da pressa,
o passarinho ignora o que a gente sente
e canta o sol, sem medo ou promessa.
Um é o ruído do homem que constrói,
o outro é a música da terra que resiste;
um som que avança e o tempo corrói,
o outro, um sopro que nunca desiste.
Nessa orquestra de ferro e de pluma,
os sentidos aprendem a filtrar:
entre a fumaça que tudo perfuma,
há sempre uma ave ensinando a escutar.
Amarilis Pazini Aires