O Espelho no Escuro
A inveja não tem luz própria,
mora na fresta, no canto do olho,
alimenta-se do banquete alheio
enquanto colhe o próprio espinho.
Ela não quer o sapato que pisas,
quer ver teu passo vacilar na estrada.
Não deseja a coroa que usas,
mas ver tua cabeça rebaixada.
É um eco que chora no escuro,
um espelho que deforma a imagem,
que transforma o sucesso do outro
em sua mais cruel desvantagem.
Veste a capa do elogio morno,
do conselho que esconde o espinho,
mas racha o peito de quem a carrega,
envenenando o próprio caminho.
Pois quem vive a medir o jardim do vizinho
esquece a semente que tem na mão,
condena a flor que poderia ter ganho
a secar na raiz da frustração.
Amarilis Pazini Aires