O Peso do Vazio
Doou-se o linho, o afeto, o tempo inteiro,
A mesa posta, o cais e a calmaria.
Mas o retorno veio feito o vento:
Um sopro frio onde o calor cabia.
Dói perceber que o laço se afrouxou,
Não pelo tempo, mas por desleixo.
A falta de cuidado é uma sombra
Que nos entorta o prumo e o queixo.
É a indiferença, esse cinzel cortante,
Que talha a alma e o peito esvazia,
Deixando a triste e amarga sensação
De se entregar o mar a quem queria a doce poesia.
Mas recolha o teu pranto desse chão,
Não mude o teu ouro por metal vulgar.
Quem não soube ler a tua imensidão
É quem perde o privilégio de te habitar.
Silencia o peito, recolhe as tuas velas,
E volta a olhar para o teu próprio altar.
A dor é imensa, mas a tua luz é bela,
E nenhum descaso pode a apagar.
Amarilis Pazini Aires
Fotoamarilisaires