O Coro dos Invisíveis
Há um sussurro nas frestas da casa,
um estalar de móveis que não é o tempo,
mas o leve roçar de uma asa,
o peso sutil de um pensamento.
Não estamos sós, nunca estivemos.
Ao redor da mesa que o dia desenha,
sentam-se os passos que já esquecemos,
os donos da voz que a memória retém e empenha.
Conversar com as almas que nos rodeiam
não exige palavras, altares ou preces;
basta o silêncio onde os medos se anseiam,
o instante exato em que a noite adormece.
Elas respondem no frio de um sopro,
na página do livro que dobra sozinha,
no sobressalto que aquece o corpo,
na sombra que cruza a calçada vizinha.
Vivos de ontem, memórias de agora,
sentinelas discretas do nosso caminhar.
Quem sabe se o eco que se ouve lá fora
não é apenas alguém querendo conversar?
Amarilis Pazini Aires
Fotoamarilisaires