Rasgando as Nuvens
A alegria não pede licença; ela arromba as portas da gravidade e faz o peito flutuar. Não é um estado de espírito duradouro ou uma meta alcançada com esforço vigoroso, mas sim o susto bom de estar vivo. É o sol que decide rasgar as nuvens num dia qualquer, transformando o asfalto cinzento em um espelho dourado.
Ela habita nos detalhes miúdos, quase invisíveis aos olhos pressados. Está no aroma do café que acorda a casa, no riso frouxo que transborda sem motivo aparente, no compasso desajeitado de uma dança na sala de estar. É uma espécie de eletricidade mansa que percorre as veias, um calor que nasce no estômago e floresce nos lábios em forma de sorriso.
Quando a alegria chega, o tempo desacelera. O passado perde o peso do arrependimento e o futuro deixa de ser uma ameaça. Tudo o que resta é o agora, imenso e vibrante, como um acorde perfeito que ecoa no silêncio do mundo. Ela nos lembra, sem precisar de palavras, que a vida — apesar de todas as suas arestas — ainda sabe ser incrivelmente leve.
Amarilis Pazini Aires
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