O Nó no Laço
Do lado esquerdo, a porta estava sempre aberta.
Dividia-se o passado, o riso frouxo, o pranto derramado;
Acreditava-se na travessia longa, na rota certa,
Onde nenhum dos dois caminharia descuidado.
Mas o tempo, esse mestre de faces ocultas,
Mostrou que o peso do afeto não era igual na balança.
Nas horas de calmaria, as presenças eram muitas;
Na primeira tempestade, sumiu a segurança.
Dói ver o laço virar nó que aperta e sufoca,
Perceber que a escuta, afinal, era só distração.
A decepção na amizade é uma nota que destoca,
Um eco vazio onde antes havia canção.
Descobrir que o abrigo era feito de areia
Custa o preço alto de uma extrema lucidez.
A alma recolhe os fios da teia
E reconstrói seus muros, um tijolo por vez.
Mas se o outono leva as folhas que eram falsas,
O tronco ganha força para o que há de vir.
Quem sobrevive à queda em águas rasas
Aprende a escolher bem com quem vai dividir.
Amarilis Pazini Aires
Fotoamarilisaires