O Som do Vazio
Quando a última mala cruza o portão
e o eco dos passos se perde na rua,
a casa descobre uma nova estação:
a solidão desarmada, despida e nua.
De repente, o relógio na parede da sala
ganha a força de um tambor que não cansa.
Cada tique, cada toque, parece que fala,
relembrando o compasso de uma velha lembrança.
O motor da geladeira é um ruidoso motor,
o estalo do teto é um susto sem fim.
O trânsito lá fora, num grito de dor,
invade as janelas, cobrando de mim.
O mundo lá fora continua barulhento,
enquanto aqui dentro o silêncio é demais.
Viver só é ouvir, a cada momento,
o volume do espaço que os outros deixam para trás.
Amarilis Pazini Aires
Fotoamarilisaires