O Labirinto de Vidro
(Narcisista)
Olhas para o espelho e não vês o vidro,
Vês apenas o mito que criaste de ti.
Um castelo de vidro, alto e erguido,
Onde o mundo inteiro gravita por ali.
Alimentas-te do eco, do aplauso, do olhar,
Mas a plateia, para ti, é só um cenário.
Não sabes o que é ver, só sabes sugar,
Fechado no teu próprio e eterno camarim.
O teu brilho é luz que não aquece, é fria,
Um sol de mentira que queima quem chega perto.
E na solidão que o teu silêncio recria,
O teu reflexo é o teu único deserto.
Tens medo do avesso, do erro, do que é real,
De ver que por trás dessa moldura dourada,
Não há uma grande obra, herói ou pedestal,
Apenas o vazio de quem, no fundo, não sente nada.
E assim segues só, coroado no teu trono,
Amando a imagem que a água desenha,
Sem perceber que, na pressa de seres o dono,
És apenas o prisioneiro da tua própria teia.
Amarilis Pazini Aires