O Gosto do Tempo Amargo
Na boca, um resto de café passado,
que o tempo esfriou e o peito guarda.
Não é a dor do corte escancarado,
é a poeira que no canto tarda.
Nasce do sim que se vestiu de não,
da expectativa que virou acre.
Não queima como o fogo da paixão,
mas seca a fonte, e não opera milagre.
Olhar o mundo por um vidro opaco,
achar que o sol de outrem é ofensa.
Na fortaleza onde me refugio,
a própria sombra é o que me condensa.
E desse fel que a alma engole a seco,
faz-se a armadura de quem já cansa.
A amargura é o pior eco:
o som mudo de uma velha esperança.
Amarilis Pazini Aires
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