Ontem no Baile
(Prosa Poética)
O salão era um mar em transe, agitado por sopros de metais e o pulsar grave dos graves. As luzes, embriagadas de lilás e dourado, escorriam pelas paredes como veludo líquido, derretendo a noção do tempo. Ontem, o baile não era apenas uma festa; era um santuário de presenças fugazes.
Passos cruzavam-se sem memória. Vestidos rodopiavam criando coreografias, e cada risada lançada ao ar parecia um sobressalto de vida contra o silêncio lá de fora. No centro de tudo, os olhares jogavam suas redes: buscas sutis, promessas breves que nasciam na introdução de uma música e morriam antes do último acorde.
Os perfumes se misturavam criando um aroma único de mistério e suor doce. Ninguém pertencia a ninguém, mas todos pertenciam àquela mesma frequência frenética.
Quando os metais finalmente se calaram e o salão começou a despovoar, sobrou apenas o eco dos passos na calçada úmida e a poeira dourada suspensa nos raios da manhã. Ontem no baile, fomos todos ilusão breve, intensa e inesquecível.
Amarilis Pazini Aires