Afinidade
Dizem que o céu se divide em nomes,
Que cada alma reza em verso diferente,
E na busca do eterno que nos consome,
O dogma tenta explicar o que a gente sente.
Mas na amizade, a fé é chão de terra:
Não pede credo, não exige doutrina.
Desarma o peito, sossega a guerra,
Na mão estendida que nos ilumina.
A afinidade é um culto sem véu,
Onde dois caminhos comungam do mesmo céu.
E quando o amor acende sua chama,
A crença alheia tenta impor fronteira.
Mas o coração apaixonado não chama
Pelo nome da reza, e sim da vida inteira.
Ele canta no templo, na igreja, no terreiro,
Porque todo amor verdadeiro é sagrado,
Transcende o livro, o ritual, o terreiro,
E faz do encontro o altar mais elevado.
A fé pode erguer paredes de pedra e dor,
Mas o afeto desmonta qualquer templo.
Pois na religião mais antiga do amor,
A alma que acolhe é o único exemplo.
Amarilis Pazini Aires