A Excursão das Idosas
Sátira
O motor de manhã cedo já ronca sem paciência,
E na porta do ônibus, a fila da experiência.
É excursão de idosas, ninguém vai ficar pra trás,
Com sacola de pano e o protetor de alguns reais.
A Dona Iara comanda com um apito de juiz:
"Ajeita as pernas, Tonha, pra eu ver se tu tá feliz!"
A bagagem no bagageiro é mistério de arrepiar:
Tem tupperware com frango, mexerica e pão recheado.
A Batalha dos Assentos
O banco da frente é guerra, é disputa de titã,
Não importa se o embarque foi às cinco da manhã.
"Minha tonteira não deixa eu sentar no pneu!"
"Pois eu cheguei primeiro, esse assento aqui é meu!"
O motorista, coitado, já perdeu a cor da pele,
A penedo de estresse que nem santo socorre ele.
"Moço, liga o ar que tá um calor de lascar!"
Dois minutos depois: "Desliga, vou me resfriar!"
O Banquete e a Farmácia
Dez minutos de estrada, vem o cheiro de fruta,
É mexerica descascada em plena e pesada disputa.
O crochê vai na mão, a conversa é um rojão,
Falam do joelho do vizinho e da dor do rim do João.
O farmacêutico do grupo abre a bolsa de zíper:
Tem Neosaldina, Benegrip, Dorflex e xarope de guaco.
Se o ônibus tombar, ninguém morre de dor,
Tem farmácia completa e chá de capim-santo com amor.
A Parada Obrigatória
Chega no Graal da vida, a parada é de lei,
Pra comprar pão de queijo que nem custa dinheirinho de rei.
Gastam cinquenta reais numa coxinha e um café,
E reclamam que a vida tá cara demais da conta, pois é.
No banheiro do posto é uma fila sem fim,
"Menina, guarda lugar que eu vou ali no jardim!"
Tiram foto com o celular na posição vertical,
Com o dedo na lente, mas o registro é sensacional.
Voltam todas carregadas de queijo e artesanato,
Com pano de prato bordado e biscoito no sapato.
E o motorista suspira, mas no fundo bem sabe:
A alegria da vida é nesse ônibus que não cabe!
Amarilis Pazini Aires