Título Amarilis Pazini Aires - Poetando!
Frases,poesias e versos.
Capa Meu Diário Textos Áudios E-books Fotos Perfil Prêmios Livro de Visitas Contato Links
Textos

O Grande Rali, A Odisseia da Zona Norte!

O Grande Rali do GPS,A Odisséia da Zona Norte!

Tudo o que queriamos era passear em São Roque. Tomar um vinho, comer uma saborosa alcachofra na Estrada do Vinho, respirar o ar puro do interior. Mas para isso, havia um pequeno detalhe geográfico: era preciso sair de São Paulo. E, mais especificamente, atravessar a lendária, incompreendida e indomável Zona Norte.

O motorista, um senhor otimista que claramente nunca tinha passado da Ponte Estaiada para cima, olhou para o painel com a confiança de quem navega por mares conhecidos.

— Fiquem tranquilos . O GPS tá mandando o caminho mais rápido pra Marginal. Vamos fugir do trânsito.

O aplicativo deu aquela piscada maliciosa na tela e soltou a voz aveludada: “Em 200 metros, dobre à esquerda.”

E assim começou a expedição.

O asfalto liso da avenida principal foi suavemente substituído por uma rua onde o ângulo de inclinação desafiava as leis da física. Se o carro parasse, voltaria capotando até 2014. O motorista engoliu em seco. Ar-condicionado no máximo, mas uma gota de suor frio começou a escorrer pela sua têmpora.

“Mantenha-se à direita e continue por três quilômetros.”

Três quilômetros de ruelas onde dois carros populares só passam ao mesmo tempo se um deles recolher os retrovisores e os passageiros murcharem a barriga. O GPS, em sua infinita sabedoria algorítmica, calculou que cortar por dentro da favela economizaria exatos 1 minuto e 12 segundos de trânsito. Para o algoritmo, não existe geografia, cultura ou bom senso; existem apenas vértices e nós num mapa tridimensional.

A cada curva, uma surpresa. Um churrasco na calçada, três cachorros fazendo reunião de condomínio no meio da rua, um emaranhado de cabos elétricos que parecia a obra de arte de um escultor abstrato e um motoqueiro fazendo grau com uma mão só enquanto carregava um botijão de gás.

O motorista segurava o volante com tanta força que os nós dos seus dedos estavam brancos. Ele olhava pelo retrovisor rezando para todos os santos conhecidos e inventando alguns novos no caminho. Nós , no banco de trás, já tínhamos aceitado que o vinho de São Roque tinha virado lenda urbana e que seu novo destino seria virar morador local.

— Esse GPS tá sabendo o que tá fazendo, né? — a Iara perguntou, só para ver a reação.

— Com certeza, com certeza... — respondeu ele, com a voz dois oitavas mais aguda que o normal.

De repente, depois de descer uma ladeira que parecia a queda livre de uma montanha-russa e desviar de uma caçamba estratégicamente posicionada, o milagre aconteceu. O horizonte se abriu. O cheiro característico do Rio Tietê invadiu o carro como uma brisa de boas-vindas.

“Você chegou ao seu destino.”

Lá estava ela: a Marginal Tietê. Fluindo, cinzenta e vitoriosa.

O motorista soltou o ar que estava prendendo desde o topo do morro, secou a testa na manga da camisa e olhou pelo retrovisor com um sorriso amarelo de quem sobreviveu ao Apocalipse:

— Viu só? Cortei um trânsito danado. Agora é só pegar a Castelo!

E assim, o GPS fez mais uma vítima, comprovando sua teoria suprema: não importa por onde você passe, o importante é chegar na Marginal com 45 segundos de vantagem e a pressão arterial no teto.

Amarilis Pazini Aires

Amarilis Pazini Aires
Enviado por Amarilis Pazini Aires em 19/09/2026
Alterado em 19/09/2026
Comentários
Capa Meu Diário Textos Áudios E-books Fotos Perfil Prêmios Livro de Visitas Contato Links